domingo, 16 de janeiro de 2011

Manutenção dos Instrumentos: Entrevista com Fabrício Eyler

Fabrício, estamos montando uma série para disponibilizar dicas de manutenção e cuidados com instrumentos musicais, visto que os mesmos, nos dias atuais, são bens altamente valorizados e merecem toda atenção.

No primeiro post, falei sobre as formas mais recomendadas de se guardar o instrumento. No segundo, contamos com o depoimento do Cyro Delvizio, que deu dicas sobre a exposição dos instrumentos em diferentes níveis de umidade relativa. Já no terceiro post, o violonista e guitarrista Gustavo França nos revelou sua experiência pessoal e um ponto de vista diferente (o que acabou enriquecendo e muito nossa discussão!).

1- Assim, complementando o que já foi dito, explique a relação entre guardar o instrumento num estojo adequado e a conservação das cordas.
 
Primeiro é preciso ressaltar que moramos no Rio de Janeiro, uma cidade extremamente úmida e próxima do mar. Essa proximidade é um fator que nos coloca frente a um dos mais terríveis inimigos de um instrumento musical; a maresia. Seja em relação às cordas ou ao corpo um cuidado a mais é necessário. Com o avanço da tecnologia, estojos especiais foram desenvolvidos para dar um maior conforto e segurança ao instrumento e ao instrumentista. São cases de materiais isolantes que funcionam como uma barreira protegendo o instrumento de quedas e batidas e também dos malefícios do clima. Em nosso clima tropical o suor torna-se um agente abrasivo aumentando em muito o desgaste precoce das cordas, mesmo que isso dependa do ph de cada um. Em todo caso antes de devolver o instrumento ao estojo é sempre bom tomar algumas simples providencias que em longo prazo serão economias que faremos. É importante que ao terminarmos o estudo, gravação, apresentação ou qualquer outro feito precisamos secar partes como cordas, braço e corpo. Com esse processo feito o instrumento pode ser devolvido ao case e assim garantimos uma maior vida útil ao conjunto.

 2- E sobre a diferença de umidade, na sua opinião ela influi na vibração das cordas e timbre do violão de nylon? E no de aço?

O que posso falar da umidade relacionada à vibração das cordas é puramente uma experiência própria. Primeiramente deixarei de fora as cordas de aço, não as conheço. Continuando, observei que quanto maior é a umidade menor é a vibração do tampo. Deixo claro que utilizo um violão de Pinho o que segundo os Luthiers são mais sensíveis as alterações climáticas. Todavia, costumo viajar bastante com meu violão e o que posso observar é que há uma grande diferença entre um clima úmido e um clima seco, esse ultimo somado a violões de pinho considero uma situação perfeita. Outro fator que considero importante para um melhor aproveitamento do instrumento é mantê-lo sempre limpo e em bom estado. Não sei se é um vicio ou algo que me foi passado por algum professor, mas sempre acho que um instrumento limpo emite um som mais limpo. Verdade o mito manter seu objeto de trabalho em bom estado é imprescindível para um maior conforto do interprete.

 
3- Comente sobre as qualidades de cordas para violão de nylon, tais como tensão, fabricante, e produtos alternativos.

Tenho observado que ao longo dos anos a tensão das cordas foi aumentando assim como o material de confecção foi sendo alterado. Recentemente estive com uma replica de uma guitarra romântica com cordas de tripa, ao tanger as cordas senti uma sensação estranha, como se eu estivesse com um instrumento desconhecido. Ainda que fosse um violão/guitarra suas cordas eram extremamente macias e projetavam um volume muito menor do que o de um violão contemporâneo. Não que haja uma comparação, são dois estilos e duas épocas distintas, mas não pude deixar de pensar que a maioria das obras do meu repertório foram escritas para aquele instrumento. Chamaram-me atenção realmente as cordas de tripa e pensei na ruptura que deve ter acontecido quando a Albert Augustine lançou seu modelo de nylon em 1928. Hoje em dia é claro não podemos imaginar tal processo, pois a utilização de cordas de alta tensão incorporou-se ao violão moderno. Ainda mais longe, hoje em dia são fabricadas cordas de materiais mais tensos que o nylon, como carbono, titânio ou uma mescla desses materiais, sempre visando uma maior sustentabilidade sonora. Alguns violonistas inclusive eu experimentamos materiais ainda mais tensos que os existentes, algo como cordas desenvolvidas para a prática da pesca feitas de flúor carbono, sendo esse o material mais tenso que já encontrei na minha incansável pesquisa sobre cordas para violão. Contudo, acredito que ao aumentarmos a tensão das cordas ganhamos na sonoridade, sustentabilidade e vibração, mas pagamos o preço tendo que rever alguns aspectos básicos da nossa formação técnica.


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